sábado, 16 de maio de 2009

Com os sapatos cheios de areia

-Mas cheio mesmo! Porque é que não me disseste que vínhamos para a praia? - protestei eu enquanto saltitava ao pé coxinho num esforço para descalçar o sapatinho de salto alto que se enterrava no areal.
-Se eu te tivesse dito não te tinha conseguido arrancar de casa.
Pronto, era provável, mas um aviso acerca da roupa apropriada tinha sido cortês.
Ali estava eu, no meio da praia, de sapatinhos na mão, saia que era demasiado flutuante para aquela maresia ventosa e sem protector solar.
A Madalena lá foi à sua vida, de máquina fotográfica em punho em direcção ao bando de masoquistas que chapinhavam contentes da vida na água que devia estar gelada. Devo dizer que lhes admirei o gosto pelo desporto mas não lhes invejei a sorte.
Olhei para um lado, olhei para o outro e decidi ir sentar-me à sombra de uma prancha. Ficava resguardada do vento e do sol e de areia já estava eu cheia, de qualquer forma.
Tirei o livro da mala (sempre, sempre um livro na mala.. poupa tanta seca) e enfiei o nariz na história.
Já estava eu completamente perdida no caminho de comboio entre Alemanha e a França e a fazer figas para a rapariga não ser apanhada pelo tipo que andava a revistar as carruagens quando de repente me foge a sombra e o suporte.
Olho indignada para o sitio onde era suposto estar a prancha e deparo-me com um par de pernas... olho um bocadinho mais para cima e lá estava o resto. E o resto era um rapaz a olhar para mim com uns olhos muito surpreendidos.
-Desculpa, não reparei que estavas aí atrás.
Aparentemente era o dono da prancha... Oops! Se calhar não é suposto pessoas encostarem-se à prancha alheia... se calhar é como com os carros, quando chegamos ao pé do nosso e está lá alguém encostado na amena cavaqueira fazemos aqueles olhos de "tira a mão sebenta de cima do meu rodinhas JÁ!".
Levantei-me num pulo para pedir desculpa mas, sendo eu aquilo correu-me mal, o pé enterrou-se-me areia dentro, perdi o equilíbrio e ... olhem e tinha-me estatelado ali mesmo não fosse o tipo ter-me agarrado no braço.
Até podia ter sido cinematográfico, com o cavalheiro a salvar a donzela de uma queda aparatosa, mas não foi. Foi patético e ridículo, não vale a pena disfarçar.
Lá expliquei meio atabalhoadamente (ai que eu nestas situações sou tão eloquente) que estava sol e eu não tinha chapéu e o vento e que me sentei e que achava que não fazia mal e que fazia sombra e que, e que... Estão a ver?
-Vamos ali beber um sumo e depois podes ficar sentada na esplanada à sombra sem te chatearem. - Hum... aquilo era um convite ou era um "arranja outro pouso onde não estorves"?
Foi mais ou menos nesta altura que eu decidi olhar para o rapaz com olhos de ver em vez de estar de olhos colados à areia.
Era moreno, tinha os cabelos revoltos ainda cheios de pingos de mar, olhos escuros e quentes e uns ombros definidos que continuavam nuns bracinhos daqueles que a Aninhas gosta. Era muito jeitosinho. Mesmo muito.
Lá fui eu, beber um sumo (pelo menos não disse "vamos beber um café"... ).
Sentámo-nos e fiquei a saber que se chamava Rodrigo, que tinha 29 anos e que tinha pisado um peixe aranha uma vez quando era miúdo. Que vivia em Vila Nova de Gaia e que o sonho dele era ter uma casa na praia. Que há um site na net que mostra a imagem de várias câmaras em várias praias e que partiu duas vezes o braço no mesmo sítio a fazer a mesma coisa.
Basicamente foi uma daquelas conversas aleatórias em que um assunto puxa o outro e já não sabemos muito bem como é que ali fomos parar mas queremos saber mais.
Fiquei também a saber que era um cavalheiro porque quando me ia levantar para pagar o meu sumo levei com um soturno "nada disso!". Vá digam o que disserem, power às mulheres e isso tudo, mas nós ficamos derretidas quando nos fazem isso.
Foi preciso a Madalena chamar-me para eu me aperceber que tinha estado na conversa quase duas horas.
Levantei-me, agradeci o sumo e a companhia e caminhei (com elevado nível de concentração para não me estatelar outra vez) até ela.
-Ana... - disse ela de mão na anca - diz-me depois de tanto paleio trazes o contacto do rapaz...
Fiquei a olhar para ela, como uma garota que acabou de ser apanhada a fazer asneira.
Vasculhou na mala, tirou um papel e uma caneta e escrevinhou qualquer coisa. Entregou-me o papel com o meu número de telefone e fez cara de má.
Eu baxei os olhos, dei meia volta e felizmente tive de andar pouco porque ele vinha na nossa direcção.
- Aparentemente, segundo a minha amiga, é falta de educação não dar o número de telefone quando nos oferecem um sumol. Se tivesse sido uma coca-cola tinha de te dar o meu primogénito e nem queiras saber o que te era devido se fosse um sumo de laranja natural.
Ele riu-se, agarrou no papel e disse que vinha com intenções de me pedir o e-mail para me enviar o tal link. Pedi a caneta à Madalena e acrescentei o blábláblá-arroba-qualquer coisa ao papelinho.
E vim-me embora sob o olhar "começa a contar tudo" da Madalena.
Estávamos a chegar ao carro quando tocou o meu telemóvel. Bem... a Madalena riu-se toda.
-É ele.
-Oh, não é nada.
-É pois, atende lá isso!
E era. Ah, e tal, estava a confirmar se percebia bem os números do papel e já agora, para não desperdiçar uma chamada telefónica, se eu não queria ir jantar no dia seguinte.
E eu disse que sim.

5 comentários:

carpe vitam! disse...

e então, como foi?

Ludmila Roumillac disse...

E aííí... ?

Besosss

WL disse...

ah bom!! É viva!!! Bom saber!!:)

Joana disse...

Estamos todos em suspense à espera dos desenvolvimentos, cá me parece que esse jantar foi interessante.
Vá lá conta como foi.

Ritinha disse...

Queremos saber mais!...